Super Meia Maratona Noturna de Extrema 2012 – Por Quem Lá Esteve

julho 19 | Escrito por George | DESTAQUES

Você esteve em Extrema, neste 14 de julho participando da Super Meia Maratona Noturna de 2012?

Se a resposta for afirmativa, talvez você saiba que pouco pode ser dito.

Se a resposta é negativa, é para você que eu vou escrever hoje.

O que fica verdadeiramente são as lembranças, a memória e as imagens resgatadas que aqueles metros todos de desnível podem trazer. Guarde consigo, mas também bata no peito, brade forte que você completou a mais dura corrida de montanha do país, onde as temperaturas na casa de um dígito e os 1.200 metros de desnível positivo acumulado em apenas 23 quilômetros marcaram fortemente aqueles que se inscreveram e largaram.

Quero escrever pra dizer que em uma prova como essa você realmente se sente desafiado. Desde a largada em leve subida. Sim, pouca coisa, porque nos primeiros 200 metros você despenca por uma ladeira em asfalto onde a primeira coisa que se pensa é “Fu*, vou ter que subir isso aqui depois de correr 23 quilômetros?” A inclinação é tenebrosa, mesmo em asfalto! Mais um pouco você chega ao início do primeiro subidão. Você sai dos 880 metros de altitude e vai até 1.485 em apenas 5 quilômetros. No princípio asfalto, depois estrada de terra e em seguida trilhas fechadas, daquelas de precisar dos braços para impulsionar morro acima.

O próximo trecho interessante é feito dentro da mata, com descidas curtas e íngremes, sem chance para ultrapassar alguém. É hora de relaxar e apreciar. Absolutamente ninguém forçou a barra para ultrapassagens, rolando sempre um clima de muita diversão e brincadeiras. Na verdade, alguns que se sentiam mais lentos nos trechos técnicos ofereciam passagem aos mais afoitos. Ganhei e cedi posições neste trecho conforme a configuração e o fôlego, tudo sem estresse, sem as cotoveladas que já recebi em corridas de rua. Veja bem, não estou dizendo que a galera das montanhas seja mais educada ou superior, nada disso. Digo apenas que a cortesia foi a tônica do relacionamento entre os atletas.

Nem tudo foram flores. Observei em alguns trechos os restos mortais de embalagens de géis energéticos, ali largados por atletas sem um mínimo de educação. Imagino a bagunça que deve ser a casa dessas pessoas, bem como suas vidas… É certo que a organização faz sua parte no dia seguinte, fazendo o “pente-fino” nas trilhas, mas educação e respeito ao atleta que vem atrás é algo simples de praticar.

De repente a trilha se acaba e desembestamos morro abaixo por uma estrada de terra íngreme o suficiente para travar qualquer joelho ou quadríceps, aquele músculo anterior da coxa que você geralmente só lembra que existe após uma prova como essa. A descida era longa, escura e até mesmo tensa. Afinal, a tendência é relaxar e acreditar que, mesmo morro abaixo, o terreno se apresenta irregular. Engano! Alguns buracos ocultos pelas sombras esperavam os mais incautos.

No fundo do vale, um dos raríssimos trechos planos, coisa de 200 metros e o bem equipado posto de hidratação indicava a pirambeira à frente. O “aquecimento” para o já famoso e temido “Pasto da Morte”. Muitos e muitos metros de desnível nos aguardavam uma vez mais. Mais de quatrocentos metros a serem superados com fibra e paciência em aproximadamente 2 quilômetros. Primeiro, por estradas de serviço de uma propriedade, em seguida no meio do capim mesmo. Contornamos pirambeiras, nos assustamos com buracos sob pedras e até mesmo nos permitimos questionar se já não bastava tantos obstáculos.

E nesse momento é que cai a ficha. Olhando para o alto não se viam apenas estrelas, mas sim as lanternas dos atletas poucos metros mas muitos minutos à nossa frente. Um passinho de cada vez, centímetros ganhos a cada contração muscular das já exaustas pernas. Perá aí. Ali não usávamos apenas pernas. Era necessário agarrar o mato à frente bem no nosso nariz e botar o corpo inteiro para trabalhar contra a gravidade. Neste ponto não olhávamos para trás para saber se alguém se aproximava. Olhávamos para baixo! Luzes de lanternas abaixo e acima, um espetáculo muito difícil de descrever.

Mas como tudo que nos alegra a alma dura pouco, enfim atinge-se o topo. O staff da prova incentivava os atletas, motivando-nos com a expectativa da descida final, a ser realizada pelo mesmo trecho percorrido no início da prova, sentido inverso, obviamente.

No cume da montanha, aquele gostoso trecho de descampado e, em seguida, uma última chance de se reabastecer de líquidos. As luzes da cidade de Extrema mais de 600 metros morro abaixo indicavam a meta final: a linha de chegada.

Despenca e despenca muito! E o pensamento: como pudemos subir esse tanto correndo? Agora é poupar as pernas, para que não trave tudo, descer em um passo contido e equilibrado, com atenção. Em poucos minutos chegamos à área urbana.

Que delícia correr ali, já visualizando o centro da cidade, local de largada e chegada. Lembra daquele parágrafo lá no começo onde eu tratei da largada e do receio em subir um “barranco-de-asfalto-estilo-jesus-me-chama”? Da minha parte, confesso que o ignorei. Eu estava “chapado” de contentamento por estar completando mais este desafio, e na verdade, querendo mais! Poxa, por que só tem uma vez por ano a Super Meia Maratona Noturna de Extrema? Sugestão: que tal uma versão diurna, no verão, ao meio-dia, em sentido inverso?

Muito interessante observar que os atletas que correram os 12 quilômetros da prova curta, com suas dificuldades proporcionadas pelo desnível acumulado, tinham um mesmo discurso ao final de sua prova: “em 2013 quero fazer a prova longa!”

Bem, montanheiros e afins. Como eu disse, eu sei que não rola escrever sobre sentimentos em uma prova como essa. É apenas a minha visão dos fatos que espero, um dia, inspirar mais e mais pessoas a chamar para si este desafio de concluir uma prova de montanha “de verdade” como essa.

Encontro você em Extrema, no inverno de 2013.

Abraços!

 

Montanhista, corredor e amante das atividades ao ar livre, George José Volpão nasceu em Curitiba – PR há 35 anos onde reside até hoje. A apenas 50 quilômetros da capital paranaenses erguem-se as encostas da Serra do Mar, onde exercita o prazer da vida nas montanhas com a maior frequência possível. Além do Paraná, já percorreu em trilhas em Minas Gerais, Santa Catarina, Espírito Santo, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Argentina e Chile. George também se dedica a escrever bastante também, tendo uma grande coleção de textos já publicados em sites e revistas. Você pode conhecer um pouco mais sobre o autor e fazer contato com ele através do seu site: www.georgevolpao.com

19 Comentários para “Super Meia Maratona Noturna de Extrema 2012 – Por Quem Lá Esteve”

  1. Alex disse:

    É pura verdade… Que prova é essa !!! Só quem foi que sabe o que é…

    abs

    Alex – TOP TEAM

  2. Marcio disse:

    Ola, adorei o desafio e irei treinar para o percurso londo no ano proximo ano, como sugestão para a prova diurna no domingo subimos (de carro) a montanha que leva a plataforma de salto, onde pelo GPS atingimos a marca de quase 1700 mts em um desnivel impressionante além de ser muito gostosa a estrada.

    Parabéns e realizem mais provas noturnas em cidades do interior proximos a São Paulo.

  3. Anderson disse:

    Sensacional esta narrativa Volpão,
    eu fiz a curta e quase morri,
    ano que vem farei a longa,
    e morro de vez.
    Nos encontramos em EXTREMA em 2013.
    Abraços.

  4. volpao disse:

    Olá Anderson.

    Obrigado pelo comentário e pelas palavras. Extrema é extremo. Bora treinar que iremos além da morte em 2013, hehehe.

    Abraços e bons treinos.

  5. Julien albert disse:

    Esta prova tinha que aumentar a kilometragem para 30 km aí vai ser Mais osso

  6. NILTON SANTOS RIBEIRO disse:

    Valêu guerreiro, pois eu também estava lá e te digo que é verdadeira superação aquela coorrida pois cada ano que passa mais ESPETÁCULAR FICA, VALÊU ENCONTRAREMOS POR ESTE MUNDÃO DAS TRILHAS.

  7. Não tem prova igual!!!! Parabens a todos que estiveram lá o puderam ver como é

  8. ivan disse:

    Meu segundo ano em extrema e não consegui mas parar obrigado pela otima organição!

  9. Natan disse:

    Eu concordo com Julien, essa prova deveria ter uma versão de 30km em 2013 !!!
    Sensacional!!!

  10. Armando disse:

    Realmente essa é uma prova EXTREMAmente única, e para NÓS que fizemos o percurso curto (sim eu fiz o percurso curto), fica exatamente o desejo na boca no final de quero mais e ano que vem vou fazer o LONGO.

    Graças a Deus, a oração que essa corrida me inspirou a escrever foi lida antes da largada, e que eu saiba DEUS ouviu e gostou, por isso todos nós terminamos cansados, mas vivos e inspirados para a próxima EXTREMA de 2013.

    SENSACIONAL!!!!:)

  11. CARENALED RUN disse:

    A palavra certa é superação……………. Pasto da Morte sem comentarios fantastico quem corre deve conhecer essa prova um experiaencia para o resto da vida fica a dica em 2013 estarei lá.

  12. volpão disse:

    Opa! Bacana ver a galera motivada! Rumo às próximas etapas!

    Abraços e boas trilhas!

  13. Pessoal da roça disse:

    Ola atletas, foi muito legal torcer por voces la na roça… espero que nossa pequena torcida no meio do caminho tenha aquecido o animo de voces… Parabéns pela coragem… esperamos voces em 2013 !!! Celina, Alice e Monica

    • Toinho disse:

      Olá Alice, Celina e Monica,

      Pela primeira vez em 8 anos de Extrema, escuto na escuridão da roça palavras de incentivo.
      Calor no frio da noite, luz na escuridão.

      Agradeço em nome dos corredores o carinho de voces.

      Obrigado
      Toinho

      PS: fui um dos que acenou e agradeceu

  14. Elis disse:

    êta, George, não posso ler seus relatos que me dá vontade de sair correndo, e de preferência no meio do mato:)

    já tinha lido seu relato de Extrema 2011, e neste você conseguiu atiçar ainda mais a gente:)

    terminei de ler, pensando: eu também quero me acabar de correr (ou me arrastar) no pasto da Morte:)

    me arrependi de não ter forçado a barra pra ir este ano!
    quem sabe em 2013 dá certo!
    vontade não falta!

    parabéns por mais esse belíssimo desafio, e pelo relato inspirador!

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